domingo, 27 de janeiro de 2013

Questionar as armadilhas jé é um começo


Hoje decidi que é possível retomar o blog. Por um tempo fiquei muito presa ao seu nome e entendia que somente faria sentido escrever se o assunto fosse a cidade. Agora percebo que não. Se palimpsestos são intertextualidades, textos que se sobrepõem a textos, histórias que escondem e, por vezes, revelam outras histórias, então, o blog é sobre a vida, seus encontros, desencontros, afetos, descontroles, alegrias, que também se sobrepõem e se inscrevem em nós.

Entendi também que aqui será minha cabeça transformada em texto, minhas conversas interiores, meus questionamentos, minhas inquietações, que podem ou não ser comuns a tantas outras pessoas. Não será um blog para receber milhares de compartilhamentos nas redes sociais, será apenas um espaço questionador.

Com tantos blogs de moda, maquiagem, estilo, decoração, publicidade, que adoro, aqui prefiro ir um pouco na contramão e me perguntar aonde isso tudo nos leva. Não sou anarquista, socialista, revolucionária, nem pretendo mudar o mundo - nada disso! (essas coisas ainda existem?) Uso moda, gosto de maquiagem, sou publicitária (!!!), mas me sinto cansada de sentir falta de coisas que não significam. Sinto falta de pessoas reais, com vidas interessantes, com dramas, superações, alegrias banais. E nem estou falando das vidas perfeitas estampadas no Facebook. Estou falando de encontros diários que me parecem tão fakes quanto a timeline em alguns momentos.

Talvez algumas pessoas se reconheçam por aqui e pode mesmo não ser mera coincidência. Desde já peço desculpas e digo: não é nada pessoal. Essa é a penas a minha forma de protesto silencioso contra o que chamo de “armadilhas” que nos roubam a alegria de sermos quem somos, a autenticidade do nosso modo de vestir, a naturalidade do nosso modo de falar, a simplicidade dos nossos gestos, a sinceridade do nosso olhar e a espontaneidade do nosso sorriso.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Preguiça da pressa

Ando com preguiça da pressa, tenho a sensação de estar no caminho inverso das urgências, no descompasso da cidade que não para e quer sempre mais. Sinto como se o Coelho Branco, aquele da Alice, olhasse para o seu relógio e ao perceber que os ponteiros andam em câmera lenta, olhasse para mim e dissesse: “Para que correr? Não estamos atrasados e temos tempo de sobra”.

Andar na contramão é uma escolha. Ser olhada de viés é a consequência. Num mundo onde o tempo é hiperacelerado e o espaço encolheu, fazer a opção por ir mais lento e alargar horizontes soa como loucura quando não como preguiça ou apatia. Na verdade, entrar nessa roda-viva sem tecer ao menos um fio de questionamento se isso se encaixa no modo de vida que queremos é que me parece insano.

Acabamos por fazer coisas demais, comprar coisas das quais não precisamos simplesmente por parecer mais adequado, mais bem aceito, “normal”. Essas coisas que compramos sem precisar, esses títulos que acumulamos sem, muitas vezes usar, esses papéis que desempenhamos sem questionar, se tornam as correntes que arrastamos e que com o tempo pesam ao ponto de causar feridas.

E arrastar corrente pesada em tempo de velocidade me parece um paradoxo ainda maior do que escolher a leveza e a liberdade de seguir sem tantas cobranças e exigências. Uma epifania aparentemente. Mas me parece uma forma bem mais prazerosa que aproveitar o agora já que nada dura para sempre, como já dizia aquele mesmo coelho à Alice: “Alice: Quanto tempo dura o eterno? / Coelho: Às vezes apenas um segundo”.

sábado, 5 de maio de 2012

Cidade e desejo

Lembro que todas as vezes que pensei em me mudar de cidade, ou que me mudei efetivamente, fui motivada por um desejo. Desejo de viver com qualidade, de morar em um lugar mais bonito, de conhecer novas pessoas ou de rever tantas outras. Olhar para uma cidade e imaginar-se nela é experienciá-la como imagem possível, como sonho. E ainda que a cidade já seja conhecida, enquanto não se chega ao destino, é o desejo que conduz a imaginação e dá forma a uma cidade latente porque ainda não habitada.

É o uso que nos dá a noção do modo de ser da cidade e dos seus moradores. Viver a cidade é reconhecê-la, é ler as sutilezas do seu dia-a-dia e traduzi-la. E é aí que pode nascer o descompasso entre o que se imaginou e o que de fato foi encontrado, porque a cidade é uma para quem acaba de chegar e outra para quem nela já está há algum tempo. É uma para o estrangeiro e outra para quem dela nunca se afastou.

Na dinâmica cotidiana é que se confrontam expectativas e vivências que ora se confirmam deixando com a gente a alegria do acolhimento e ora se negam deixando claro que o movimento não cessa para quem sempre renova vontades.

De qualquer forma, desejo é aquilo que a gente carrega, que nos acompanha e nos move independente de onde estamos ou para onde vamos. É como escreveu Ítalo Calvino: “os passos seguem não o que se encontra fora do alcance dos olhos, mas dentro (...)."

sábado, 28 de abril de 2012

Das coisas que gosto (mesmo quando parecem contraditórias)

“Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me
as minhas mutações faiscantes que aqui
caleidoscopicamente registro.” (Clarice Lispector)

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entendo que somos feitos da mistura dos retalhos que costuramos ao longo da vida. por muito tempo pensei que gostar de muitas coisas me levaria a não mergulhar em nada profundamente. para mim era importante ter uma postura que se refletisse um gosto que fizesse sentido, entendendo o “fazer sentido”como coerência, como linearidade e padrão. entendi com o tempo que o que nos constitui é plural e nos permite brincar com a multiplicidade de nossas facetas que podem nos surpreender sem culpa. porque reduzir nossas possibilidades se podemos transitar por todos esses textos inscrevendo-os como palimpsestos em nós?

domingo, 19 de junho de 2011

A cidade não tem me falado muitas coisas; nem eu a ela. Ou será que não estou sabendo ouvir?

domingo, 22 de maio de 2011

Porque o que busco ainda não tem resposta

Reencontro uma amiga querida que acaba de chegar de Londres cheia de expectativas por reconstruir seu coração (e sua vida); outro amigo fala via skype da alegria de conseguir um trabalho de verdade na Austrália; outra, ainda, acaba de voltar para os EUA onde vive cheia de esperança de voltar e outro, que não falo há tempos, soube, vai voltar de Barcelona.
E assim acontecem as idas e vindas entre países, entre cidades. Aprendemos muito, conhecemos pessoas incríveis que, muitas vezes, mudam nossa vida. Vemos culturas diferentes, aprendemos o respeito pelo que é diferente de nós, olhamos por outras lentes.
Ganhamos dinheiro, experiência profissional, mas em algum momento, surgem as perguntas: o que é realmente importante? O que estou fazendo é o que gostaria de estar fazendo neste momento? Quanto de alegria e leveza isso me proporciona?
Como dizia Marco Pólo no livro “As cidades invisíveis” de Ítalo Calvino: “de uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas”. E, uma vez que nossas perguntas mudam ou ficam sem resposta, pode ser hora de partir; ir em busca de outros diálogos.
E, então, vem a pergunta mais importante: estou em busca de que? Mesmo que essa pergunta nunca seja respondida porque são demais de muitas as coisas que nos movem, sabemos que todas estão dentro do sonho de sermos melhores que ontem.
“As cidades, como os sonhos”, afirmou Marco Pólo, “ são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas e que todas as coisas escondam uma outra coisa”.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Lugares

Quando se viaja muito, e quando você ama simplesmente passear e se perder, pode acabar nos lugares mais estranhos. Tenho uma atração enorme por lugares. É quase como um vício. Outras pessoas são viciadas em drogas ou futebol (bem, eu tb…), ou dinheiro ou carros ou sucesso ou qualquer outra coisa. Eu gosto de lugares. Fico tão ligado a eles que sinto saudades de uma dúzia de lugares ao mesmo tempo como se fossem minha casa. O que será que os lugares têm? Em primeiro lugar fico muito curioso com eles. É só olhar para um mapa que fico animado com nomes de montanhas, vilarejos, rios, lagos ou formações de terra, desde que eu não conheça e nunca tenha visitado o lugar. Leio os nomes e imediatamente quero ver esses lugares. É a mesma coisa com cidades! Os nomes de bairros, praças, ruas ou prédios evocam um desejo ardente de vê-los. Claro que nem sempre gosto do que descubro. Mas muitas vezes gosto. Será que é sorte? Aprendi através de uma longa experiência de procurar por lugares que se tem a tendência de encontrar exatamente aquilo que você QUER encontrar. Outras pessoas encontram coisas fascinantes também, claro, mas me parece que elas tem resultado diferentes dos meus. Elas têm uma mentalidade diferente, pra começar, e estão procurando por outros encontros. Pessoalmente, pareço ter aprimorado minha noção de lugar para coisas que estão “fora de lugar”. Todo mundo vira a esquerda, porque “ali é interessante”, eu viro a direita onde não tem nada! E com certeza estou de frente com meu tipo de lugar. Não sei, devo ter algum radar dentro de mim que geralmente me guia a lugares que são estranhamente quietos ou quietamente estranhos. Fico ali sem acreditar bem no que vejo… Essa é minha sensação predileta. Talvez você comece a entender de onde vem meu apetite insaciável por lugares que não conheço. Vem do fato de que lá fora no mundo existem os lugares e pontos e espaços mais impressionantes que você nunca poderia imaginar nos seus sonhos, em cores e formas desconhecidas, com os detalhes mais loucos, em constelações impossíveis. Por isso é que não dou a mínima para nenhuma dessas imagens computadorizadas pois em todas elas, hoje em dia o mundo é representado artificialmente, juntado, manipulado, inventado ou composto para criar uma nova realidade. O que tem de tão bom nisso? A realidade que encontro lá fora, de vez em quando, esses lugares estranhos, e quietos são muito atraentes, na minha opinião e muito mais emocionais pela simples razão de que existem. Na maioria do tempo humildemente, às vezes com orgulho, geralmente esquecidos e poucas vezes famosos. Não existe algo mais lindo debaixo do céu de Deus do que a incrível, alucinatória infinita variedade de lugares que realmente existem.



Lugares Estranhos e Quietos
Wim Wenders