sábado, 28 de abril de 2012

Das coisas que gosto (mesmo quando parecem contraditórias)

“Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me
as minhas mutações faiscantes que aqui
caleidoscopicamente registro.” (Clarice Lispector)

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entendo que somos feitos da mistura dos retalhos que costuramos ao longo da vida. por muito tempo pensei que gostar de muitas coisas me levaria a não mergulhar em nada profundamente. para mim era importante ter uma postura que se refletisse um gosto que fizesse sentido, entendendo o “fazer sentido”como coerência, como linearidade e padrão. entendi com o tempo que o que nos constitui é plural e nos permite brincar com a multiplicidade de nossas facetas que podem nos surpreender sem culpa. porque reduzir nossas possibilidades se podemos transitar por todos esses textos inscrevendo-os como palimpsestos em nós?

domingo, 19 de junho de 2011

A cidade não tem me falado muitas coisas; nem eu a ela. Ou será que não estou sabendo ouvir?

domingo, 22 de maio de 2011

Porque o que busco ainda não tem resposta

Reencontro uma amiga querida que acaba de chegar de Londres cheia de expectativas por reconstruir seu coração (e sua vida); outro amigo fala via skype da alegria de conseguir um trabalho de verdade na Austrália; outra, ainda, acaba de voltar para os EUA onde vive cheia de esperança de voltar e outro, que não falo há tempos, soube, vai voltar de Barcelona.
E assim acontecem as idas e vindas entre países, entre cidades. Aprendemos muito, conhecemos pessoas incríveis que, muitas vezes, mudam nossa vida. Vemos culturas diferentes, aprendemos o respeito pelo que é diferente de nós, olhamos por outras lentes.
Ganhamos dinheiro, experiência profissional, mas em algum momento, surgem as perguntas: o que é realmente importante? O que estou fazendo é o que gostaria de estar fazendo neste momento? Quanto de alegria e leveza isso me proporciona?
Como dizia Marco Pólo no livro “As cidades invisíveis” de Ítalo Calvino: “de uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas”. E, uma vez que nossas perguntas mudam ou ficam sem resposta, pode ser hora de partir; ir em busca de outros diálogos.
E, então, vem a pergunta mais importante: estou em busca de que? Mesmo que essa pergunta nunca seja respondida porque são demais de muitas as coisas que nos movem, sabemos que todas estão dentro do sonho de sermos melhores que ontem.
“As cidades, como os sonhos”, afirmou Marco Pólo, “ são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas e que todas as coisas escondam uma outra coisa”.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Lugares

Quando se viaja muito, e quando você ama simplesmente passear e se perder, pode acabar nos lugares mais estranhos. Tenho uma atração enorme por lugares. É quase como um vício. Outras pessoas são viciadas em drogas ou futebol (bem, eu tb…), ou dinheiro ou carros ou sucesso ou qualquer outra coisa. Eu gosto de lugares. Fico tão ligado a eles que sinto saudades de uma dúzia de lugares ao mesmo tempo como se fossem minha casa. O que será que os lugares têm? Em primeiro lugar fico muito curioso com eles. É só olhar para um mapa que fico animado com nomes de montanhas, vilarejos, rios, lagos ou formações de terra, desde que eu não conheça e nunca tenha visitado o lugar. Leio os nomes e imediatamente quero ver esses lugares. É a mesma coisa com cidades! Os nomes de bairros, praças, ruas ou prédios evocam um desejo ardente de vê-los. Claro que nem sempre gosto do que descubro. Mas muitas vezes gosto. Será que é sorte? Aprendi através de uma longa experiência de procurar por lugares que se tem a tendência de encontrar exatamente aquilo que você QUER encontrar. Outras pessoas encontram coisas fascinantes também, claro, mas me parece que elas tem resultado diferentes dos meus. Elas têm uma mentalidade diferente, pra começar, e estão procurando por outros encontros. Pessoalmente, pareço ter aprimorado minha noção de lugar para coisas que estão “fora de lugar”. Todo mundo vira a esquerda, porque “ali é interessante”, eu viro a direita onde não tem nada! E com certeza estou de frente com meu tipo de lugar. Não sei, devo ter algum radar dentro de mim que geralmente me guia a lugares que são estranhamente quietos ou quietamente estranhos. Fico ali sem acreditar bem no que vejo… Essa é minha sensação predileta. Talvez você comece a entender de onde vem meu apetite insaciável por lugares que não conheço. Vem do fato de que lá fora no mundo existem os lugares e pontos e espaços mais impressionantes que você nunca poderia imaginar nos seus sonhos, em cores e formas desconhecidas, com os detalhes mais loucos, em constelações impossíveis. Por isso é que não dou a mínima para nenhuma dessas imagens computadorizadas pois em todas elas, hoje em dia o mundo é representado artificialmente, juntado, manipulado, inventado ou composto para criar uma nova realidade. O que tem de tão bom nisso? A realidade que encontro lá fora, de vez em quando, esses lugares estranhos, e quietos são muito atraentes, na minha opinião e muito mais emocionais pela simples razão de que existem. Na maioria do tempo humildemente, às vezes com orgulho, geralmente esquecidos e poucas vezes famosos. Não existe algo mais lindo debaixo do céu de Deus do que a incrível, alucinatória infinita variedade de lugares que realmente existem.



Lugares Estranhos e Quietos
Wim Wenders

domingo, 24 de abril de 2011

Limoeiro

“Limoeiro tão bonito e a flor do limão é doce, mas a fruta do pobre limão é impossível de comer”.

É com esta letra, embalada por uma bela melodia, que tem início o filme israelense “Limoeiro” (Lemon Tree) do cineasta Eran Riklis. Seu enredo ultrapassa a tensão existente entre dois países – Israel e Cisjordânia – e penetra na profundidade das relações humanas, sejam elas entre nações, entre vizinhos, entre homem e mulher.

O filme conta a história de uma mulher palestina (Salma) que teve sua vida atormentada com a chegada de um novo vizinho – o ministro da Defesa de Israel – que, em nome de sua própria segurança contra possíveis ataques terroristas exige a derrubada da plantação de limões que herdou de seu falecido pai e que amorosamente cuidou para sua própria sobrevivência - “uma árvore é como uma pessoa, precisa de atenção, cuidado, carinho e que falemos com ela”.

É possível perceber que os limoeiros, durante algum tempo, exerceram um papel de fronteira, numa alusão metafórica ao espaço que separa os dois países. É importante ressaltar que fronteira não é sinônimo de limite, mas antes se apresenta como seu contrário; na fronteira é possível estabelecer um filtro, enquanto que o limite se apresenta como um elemento contra-comunicativo. Através das frestas entre uma árvore e outra se estabelece um diálogo silencioso sobre poder, cumplicidade, resistência.

Mas não é de território que trata este filme. Riklis fala, antes, sobre a fragilidade dos laços humanos, fala sobre as relações doces e bonitas como a flor do limoeiro que muitas vezes se tornam tão azedas quanto o limão. A imagem que fica é a de um muro, este sim que restringe, que afasta, que limita, diante do qual não há mais o que dizer.


domingo, 10 de abril de 2011

Banksy - intervenção urbana e o jogo da percepção

A discussão acerca do graffiti é extensa e vai longe: é arte? é vandalismo? Prefiro, aqui, entendê-la como intervenção urbana – uma metalinguagem não-verbal que representa a cidade dentro dela mesma.

Neste cenário Banksy é um dos seus maiores representantes. Através de seus desenhos subverte não apenas os espaços e usos da cidade, mas também seus principais símbolos como ao mostrar uma “Estátua da Liberdade” infantil com o dedo no nariz ou a guarda oficial inglesa, símbolo da rigidez e postura, urinando no muro.






O artista cria um diálogo com o espaço que está para além de uma ordenação dos signos que demarcam de antemão as formas de apropriação e programam nossa percepção submetendo o corpo a uma rotina cotidiana de movimento pelo espaço que, transformada em uso habitual, muitas vezes, provoca um afastamento perceptivo.
Banksy parece interessar-se pelo modo como o corpo insere-se na cidade e a constrói, pela maneira como vive o espaço da forma como ele é – com suas paredes manchadas, riscadas, com a tintura descascando ou com suas alternativas à sobrevivência, bem como pelas marcas que ficam no corpo e na cidade decorrentes da interação de ambos na passagem do tempo.



Essa outra forma de viver o/no espaço da cidade escapa das formas rígidas e se produz na tessitura dos afetos, do embate ou encontro com o outro, com a sociabilidade enfim. De fato, a percepção da cidade, a partir da montagem de seus vários elementos, se mostra como um jogo em que as regras são feitas ao jogar, como sugerem os versos da poeta Orides Fontela “Quebrar o brinquedo ainda / é mais brincar”, revelando que destruição e construção são partes do mesmo processo de jogar com a multiplicidade dos possíveis.